Alfredo Sirkis

Corona: crise e oportunidade

No futuro, é provável que historiadores deterministas apresentem a atual pandemia de Corona vírus Covid 19 com seus brutais efeitos econômicos e sociais como “uma vingança” da natureza contra o senhor do Antropoceno, o homo sapiens. Não sou muito dessa escola mas, mesmo assim, vale a pena estabelecer certas correlações entre a sociedade contemporânea, a economia e a mudança do clima com a pandemia. 


Correlações que não são necessariamente de  causa-efeito imediata e se dão dentro de uma teia complexa e intrincada. Vou simplifica-la ao máximo para facilitar o debate. Na origem do vírus está o salto do meio animal para o humano como já ocorreu com inúmeras outras epidemias bacterianas e viróticas. Não sabemos exatamente como o Covid 19 contaminou o primeiro ser humano mas o foco parece ter sido um mercado de Hunan onde se vendiam animais selvagens. 

 

Surgido na China o virus nos remete ao ideograma chinês weijicrise/oportunidade. A pandemia tem consequências climáticas. A curto prazo,  uma delas poderá dar lugar a comemorações descabidas. Esse ano,  as emissões de gases-estufa vão cair em função da brutal recessão que a pandemia provoca, sobretudo na China onde as emissões das usinas elétricas a carvão certamente irão despencar. A retração do transporte aéreo, de industrias, etc... também trarão esse efeito globalmente.  

 

Mas nunca é bom comemorar a redução de emissões por causa de recessão porque a posterior retomada, sem uma mutação tecnológica nem mudanças nos padrões de consumo,  costuma ser brutal. Basta olhar para a grande recessão a partir da crise de 2008. É preciso que, dessa vez,  a retomada, quando se der, seja “limpa”. 

 

Outra vítima distinta da pandemia é o Consenso de Washington, o receituário de economia clássica feito dogma. Aquilo que a esquerda gosta de chamar de neo-liberalismo. Na verdade a pandemia abala o seu reduto sacrossanto, o "delenda  Déficit Público", esse horror dos horrores. 

 

Nas últimas décadas o establishment financeiro internacional, tanto privado quanto público (governos, agencias multilaterais),   fizeram do rigor fiscal seu Santo Graal. A União Europeia com seu limite sagrado  de 3% do PIB e as agencias de “rating” que impõem a países como o Brasil limites arbitrários muito abaixo daquilo  admitido em países europeus,  por uma série de critérios, alguns compreensíveis –histórico de defaut--   outros perfeitamente subjetivos quase exotéricos na sua chutometria.  É uma religião que têm fieis seguidores, entre eles, com devido destaque, o Paulo Guedes. 

 

A imprensa aqui não noticiou, mas o presidente francês François Macron deu um golpe mortal –não oficialmente assumido--  na rígida “disciplina fiscal” da UE. Suas medidas de proteção  aos trabalhadores  e às empresas vítimas da recessão provocada pela pandemia mandam para o espaço a “austeridade”. 

 

Retomam aquela abordagem dos tempos de depressão e da II Guerra na questão déficit. Franklin Roosevelt era, originalmente,  um ferrenho adepto do “equilíbrio fiscal”, mesmo no início do New Deal,  antes de manda-lo às favas. O investimento público –não confundir com gastança eleitoreira--   permitiu recuperar o capitalismo, ganhar a II Guerra, reconstruir a Europa e garantir os “30 anos gloriosos” do capitalismo com a criação do walfare state  no ocidente. 

 

Macron ao garantir recursos do estado francês para compensar os salários dos trabalhadores, submetidos a uma redução brutal da jornada de trabalho e impedir a quebra das empresas,  certamente vai estourar o teto dos 3% e logo, a Alemanha, a mais ferrenha defensora do equilíbrio fiscal –os pobres gregos que o digam—vai acabar entrando na roda também. 

 

Do outro lado do oceano, Trump já o fez, só que para dar uma indecente aliviada tributária aos ricaços. Agora vai ter que aprofundar mais ainda o déficit para fazer frente ao tal vírus que junto com Bolsonaro tanto esnobou.  

Resumo da ópera: quando a poeira baixar  é de se esperar que todos vejam que o rei está nu. O que vale para o Covid 19 deverá valer, muito mais, para a descarbonização. Até porque esse vírus aí  é pinto perto das catástrofes que a mudança climática fora de controle promete à raça humana de aprendizes de feiticeiro.  

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