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Alexandre Batista

Coronavírus e a Emergência Climática

Resumo

- O avanço do coronavírus forçará as empresas a adotarem o home office. Com o novo modelo de trabalho, a emissão de GEE derivada da mobilidade urbana será significativamente reduzida.

 

- No ápice da crise, em fevereiro, a China reduziu em 25% suas emissões.

 

- Em períodos de crise econômica, os recursos para a área ambiental são os mais vulneráveis a cortes, o que pode comprometer as metas do Acordo de Paris.

 

- Observando o grande engajamento dos governos no combate ao coronavírus, fica nítido que o obstáculo para se superar a crise climática depende de mobilização política, e não de capacidades.

 

Ao visar impedir a explosão exponencial de casos de contaminação do coronavírus, de modo com que os sistemas de saúde não sejam sobrecarregados e consigam tratar devidamente os grupos de maior risco, diversos governos implementaram medidas para evitar aglomerações. Sob quarentenas ou interdição de estabelecimentos não essenciais, a comunidade global se vê forçada a manter suas atividades, se possível, de forma remota.

 

Não é difícil prever que, nas próximas semanas, ocorrerão investimentos por parte das empresas e organizações para se viabilizar o home office em larga escala, bem como a realização de webinars em detrimento a encontros presenciais. As instituições que ainda não utilizam essas opções geralmente não o fazem por receio de perda de produtividade de seus colaboradores. Esse teste forçado balizará decisões racionais dos executivos nesse sentido.

 

Caso a experiência for positiva, o modelo possivelmente será amplamente implementado de forma contínua, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa (GEE) relacionada à mobilidade urbana. A China, primeiro epicentro da crise e líder em emissões anuais desde 2005, reduziu as suas em ao menos 25% no mês de fevereiro, ápice do surto, ao custo de um forte impacto econômico.

 

A crise global que se inicia como consequência da pandemia retirará de circulação uma parte considerável do capital antes disponível para investimentos. Esses montantes vinham sendo crescentemente direcionados para projetos de energia, seja para fontes renováveis ou para maior eficiência. A escassez desses recursos, aliada a queda do preço do petróleo, provavelmente reduzirá a velocidade da urgente transição energética para uma matriz limpa.

 

Como alinhado em 2015 em Paris, as nações vinculadas devem apresentar em 2020 uma revisão de suas NDCs até 2030 e 2050. Com toda a atenção e o espaço de discussão voltado para o vírus, é provável que haja uma menor pressão da sociedade civil sobre seus representantes quanto ao tema, tornando os novos compromissos muito aquém do que poderiam ser no cenário base. A provável redução pontual de emissões neste ano, por conta dos efeitos econômicos da doença e que devem voltar a subir logo após o auge da crise, pode servir de pretexto para que as Partes se engajem ainda menos.

 

Indispensável lembrar que, em uma conjuntura de crise econômica, há frustração de arrecadação por partes dos Estados. Historicamente, os gestores públicos que optam por medidas de austeridade tendem a cortar severamente os recursos de programas ambientais, geralmente considerando que o impacto político dessa contenção é menor do que a das demais opções.

 

Porém, poucos tem em mente que os efeitos das mudanças climáticas, agravados com tais cortes, serão ainda mais sentidos pela economia, gerando longos e constantes ciclos de recessão e depressão, além de outros impactos socioeconômicos. Diversas pesquisas mostram que, enquanto a Terra continuar aquecendo, haverá aumento no surgimento e na intensidade de doenças. O Covid-19 pode ser apenas uma amostra do porvir.

 

Ninguém pôde prever o surto, porém as causas e os impactos da alteração do clima são conhecidos há mais de 30 anos. Os diferentes governos agiram com urgência para se evitar o pior do coronavírus. Fica nítido então que a lenta reação à crise climática não se trata de capacidade, mas sim de mobilização política. Haverá mobilização dos diferentes setores para reverter esse quadro?

 

*Por: Alexandre Batista

Coordenador de Projetos do CBC

Doutorando em Políticas Ambientais - UFRJ