José Eli da Veiga

Quando o impossível é uma certeza

Caso cuidem razoavelmente da biosfera, humanos - e possíveis sucessores - ainda poderão usufruir de longuíssimo prazo de validade neste planeta: até uns 8 milhões de anos, conforme as melhores estimativas. A dúvida é se, muito antes deste limite, haverá auto-aniquilamento, por efeito adverso das mais admiráveis proezas tecnológicas. O que também contrariaria idílicas especulações sobre eventual colonização espacial fora deste sistema solar.

 

Por milênios, foram quase inofensivas as emissões de gases de efeito estufa decorrentes da expansão agropecuária. Só que o aproveitamento de recursos fósseis para a geração de novas energias aumentou demais as concentrações de CO2 e CH4 na atmosfera, engendrando o aquecimento global e seus vastos impactos nos oceanos (acidificação), degradação de solos e erosão da biodiversidade em geral. Fenômeno reforçado pelas mudanças das práticas agropecuárias que acompanharam a explosão populacional.

 

No século XX, foi no âmbito da física o avanço científico que abriu a possibilidade de efeito mais imediato - e ainda mais devastador – de guerra nuclear. Agora, da biologia à microeletrônica, ampliam-se exponencialmente as chances de novas e mais sofisticadas “armas de destruição em massa”. Tornou-se perfeitamente possível fabricar vírus muitíssimo mais poderosos que os já conhecidos, sem incentivos para que as empresas capacitadas realizem efetiva triagem das encomendas. Tal foi a preocupação de relatório sobre biossegurança ao Fórum de Davos, comentado neste espaço no último 30 de janeiro. A subestimação deste tipo de ameaça na sociedade hiperconectada pode ser mais sinistra que o menosprezo por corridas armamentistas, como a da Guerra Fria (1945-1991), e a atual, centrada em mísseis hipersônicos com ogivas nucleares.

 

Tantos convites ao autoextermínio humano têm sido estudados - sob o rótulo de “riscos existenciais” - por vários cientistas e filósofos. Entre os primeiros, destacam-se sir Martin Rees, astrofísico britânico da Universidade de Cambridge (CSER), e, nos EUA, o jovem cosmólogo sueco Max Tegmark, do MIT (FLI). No livro A Hora Final (Companhia das Letras, 2005), Rees estimou “que nossa chance de sobreviver até o fim deste século não passa de 50%”.

 

Entre os filósofos, o mais conhecido é o também sueco Nick Bostrom, da Universidade de Oxford (FHI). No livro Superinteligência (DarkSide, 2018), ele diz que “diante do prospecto de uma explosão da inteligência, nós, humanos, somos como crianças pequenas brincando com uma bomba”. Porém, embora possa não ter tanta fama, quem mais tem se dedicado a este tipo de reflexão é o francês Jean-Pierre Dupuy, que, há 36 anos, é professor de filosofia e ciência política em Stanford. Para ele, é justamente porque a catástrofe é destino detestável, a ser terminantemente rejeitado, que devemos manter os olhos sobre ela, sem jamais perdê-la de vista. Por isso, propõe a elaboração de uma metafísica que permita pensar na coerência e realidade do catastrofismo.

 

Contra a predominante conotação pejorativa, seu propósito tem sido o de elaborar uma posição que seja, a um só tempo, catastrofista e racional. Atitude filosófica que inverte a ordem metafísica em nossas formas de pensar o mundo e a temporalidade das catástrofes. Privilegiar o “pior cenário”, mas com embasamento mais sólido e universal do que mera psicologia do incerto. Fixar-se sobre um porvir repulsivo e suficientemente crível, com o intuito de desencadear ações impeditivas. Conceber a continuação da experiência humana como resultante da negação de uma autodestruição inscrita no seu destino.

 

Tal é o cerne do mais conhecido de seus 44 livros: O Tempo das Catástrofes; Quando o Impossível é uma Certeza (É Realizações, 2011), tradução de Pour un Catastrophisme Éclairé (Seuil, 2002). Discussão retomada no mais recente, que em breve estará traduzido, em Portugal, pela editora Piaget: La guerre qui ne peut pas avoir lieu (A guerra que não pode acontecer). Este comentado no caderno semanal do Valor de 13 de setembro de 2019.
 

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