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Alfredo Sirkis: "Devemos reconhecer o valor conversível do 'menos carbono' "



Para o ex-coordenador do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, a prioridade é acabar com o carvão e parar o desmatamento no Brasil, Indonésia e África. E depois reflorestar o equivalente a uma grande área como os Estados Unidos. Alfredo Sirkis é diretor executivo do Centro Brasil no Clima (CBC). O parlamentar Verde brasileiro atuou como coordenador do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima (FBMC), antes de ser destituído do cargo pelo presidente Jair Bolsonaro.


O que você acha das empresas que desejam compensar suas emissões de CO2 plantando árvores?


Na minha opinião, é necessária uma estratégia diversificada, porque a situação é terrível. No Brasil, Noruega e Alemanha, que não acreditam mais no desejo do presidente Bolsonaro de proteger a floresta e pararam de subsidiar o Fundo Amazônia. Como resultado, os estados brasileiros estão tentando assumir o controle, inclusive com a ajuda de empresas dispostas a financiar projetos de reflorestamento, bioeconomia e conservação da biodiversidade.

Alguns governos da Amazônia com os quais trabalhamos desejam criar mercados voluntários de carbono, semelhantes ao já desenvolvido no Estado do Acre.


Esses projetos podem ter um impacto positivo na floresta?


Sim, apesar de uns poucos desvios encontrados aqui e ali nos mercados de carbono, eles podem ajudar a preservar os projetos florestais e financeiros para explorar seus produtos sem destruí-los, além de reflorestar e estabelecer projetos sustentáveis ​​que beneficiariam para os pobres da região. O ecológico  e o social devem andar de mãos dadas. Nesse sentido, mercados voluntários - que não contam para as contribuições nacionais (NDC) dos países de origem das empresas - são uma modalidade entre outros. Mas não se engane, a escala deles é pequena e eles não resolverão o problema de financiamento necessário para reduzir o desmatamento ou outros vetores de ação contra as mudanças climáticas.


Então, o que deve ser feito?


A prioridade seria acabar com o carvão, mesmo que isso signifique pagar uma aposentadoria dourada a todos os funcionários do setor e investir pesado para acelerar a transição energética. Devemos parar drasticamente o desmatamento no Brasil, Indonésia e África - entre 2004 e 2012, o Brasil conseguiu reduzir seu desmatamento em 80%, isso mostra que é possível- e, então, reflorestar uma grande área como os Estados Unidos, conforme recomendado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Finalmente, é necessário reduzir drasticamente a demanda de petróleo: dentro de vinte a vinte e cinco anos, a maior parte do transporte será elétrico, à hidrogênio(célula de energia)  ou biocombustíveis; desenvolver planejamento urbano; compensar mais radicalmente as emissões da aviação comercial. Em resumo, para concluir essa transição, precisamos de uns 3 a 5  trilhões de dólares por ano. Os países desenvolvidos, que deveriam contribuir com US $ 100 bilhões, todos os anos a partir de 2020, parecem incapazes de fazê-lo. Além do que, 100 bilhões não são nada, diante do que é preciso.


Como podemos colocar a descarbonização no coração da economia?


O valor conversível de "menos carbono" deve ser reconhecido, ou seja, das ações verificadas e certificadas de redução ou absorção de carbono na atmosfera. Poderíamos considerá-lo o novo "ouro" e colocá-lo no centro das finanças! Não tenho nada contra o "porrete" – a taxa de carbono -, mas politicamente, vimos com os "coletes amarelos", na França que é sensível. Seria melhor destacar a "cenoura", ou seja, o valor econômico do "menos carbono". Este "preço positivo" já existe. No Brasil, quando o governo norueguês pagava para reduzir o desmatamento na Amazônia, esses quilômetros quadrados poderiam facilmente ser convertidos em toneladas de carbono evitadas.


No futuro, talvez hackers, pop stars, magnatas "verdes" ou jovens inventem uma criptomoeda com base nesse padrão "menos carbono", provavelmente será bem mais útil que o bitcoin que consome muita energia. Porque, para evitar a catástrofe ecológica, precisamos de uma revolução cultural e financeira.


Entrevista de Marjorie Cessac, ao Jornal Le Monde

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