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Coordenadores do CBC avaliam o primeiro semestre de 2020


Desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou estado de pandemia para a Covid-19, diversas tentativas de conter a disseminação do vírus foram propostas e implementadas, como, por exemplo, o isolamento social da população. O “novo normal” se instaurou e diversas instituições, inclusive o Centro Brasil no Clima (CBC), necessitaram adaptar-se a uma nova rotina e relação de trabalho. Além da crise sanitária global, os primeiros seis meses de 2020 foram marcado por crises políticas, reconstrução econômica pós-pandemia e pelo descaso com a Amazônia - que virou manchetes quase que diárias pelos jornais do mundo inteiro - gerando uma série de consequências e impactos nas relações entre o Brasil e o exterior. Avaliado como o ano do meio ambiente pela comunidade científica, 2020 abriu os olhos de muitos para a importância da discussão da pauta climática.


A coordenadora de projetos do CBC, Marília Closs afirma que, mesmo que a pandemia tenha trazido algumas esperanças em relação a mudanças significativas na pauta climática, a realidade não foi bem assim. Criou-se a ilusão de que se pode avançar na agenda climática a partir de dois elementos. O primeiro discurso seria que a pandemia poderia trazer consequências boas para a agenda climática, como a diminuição do uso de energia fóssil, e o segundo discurso é marcado por uma maior reflexão sobre a forma com que a sociedade se relaciona com os recursos naturais, refletindo em duas crises da mesma causa: de má gestão e má relação com o meio ambiente. No entanto, a realidade não foi bem assim. Segundo ela, não houve maiores avanços nas agendas ambientais e climáticas no Brasil.


“A agenda climática não vai avançar de forma natural em função da pandemia. Precisamos de um esforço político grande, e no Brasil foi o oposto que aconteceu. (...) Vemos líderes pensando nessa recuperação verde, mais sustentável, mas não necessariamente esses estão ganhando a disputa política no mundo”, disse Marília.


A política anti-ambiental do governo federal do Brasil tem permitido carta branca para os desmatadores da Amazônia, o que levou a números recordes de desmatamento na região nos últimos meses. De acordo com dados do Sistema de Alerta de Desmatamento do Imazon, no primeiro semestre deste ano, a Amazônia totalizou 2.544 km² de área desmatada, um aumento de 24% comparado ao primeiro semestre do ano passado. O desmatamento é hoje o principal emissor de gases do efeito estufa (GEE) no país, que para conseguir cumprir com a sua NDC necessita zerar o desmatamento ilegal.


Para o coordenador de projetos do CBC, Alexandre Batista, as ações do governo Bolsonaro para controlar o desmatamento ilegal, foram no sentido contrário. Tal fato foi ilustrado pela fala do Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sobre “passar a boiada”, explicitando um possível desmantelamento do arcabouço legal e fiscalizatório relacionado ao meio ambiente. Destaca ainda a chamada MP da grilagem, atualmente em formato de Projeto de Lei, e também o emprego de militares na operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para combater as queimadas na região da floresta. “Aqui é importante destacar: a GLO na Amazônia está recebendo mais recursos do que todo o orçamento para ações e fiscalização por parte do IBAMA no ano de 2020, e ainda sim com muito menos resultado e efeito. Isso acontece pois quem os planejadores das ações não são especialistas no tema, não conhecem o que funciona ou não como a equipe técnica própria do IBAMA. Então, na prática, se por um lado direcionar um orçamento maior do que o dos últimos anos para lidar com o problema é positivo, por outro é um desperdício de recursos do contribuinte, já que as ações são realizadas de forma menos efetiva. Por fim, vale destacar que os próprios militares começam a reclamar de que a verba para a GLO está sendo intensamente contingenciada por parte do governo.”


Mesmo com o alvoroço das políticas públicas ambientais no Brasil e no cenário mundial, Marília Closs acredita que a pandemia abriu a possibilidade de conectar a agenda da crise sanitária com as questões ambientais, favorecendo um maior conhecimento sobre a pauta e abrindo espaço para o ativismo nas redes, para que, quando se estabelecer a normalidade, os grupos do terceiro setor estejam mais fortes e mais presentes na luta pela mitigação das mudanças climáticas.


O novo “normal” gerou novas oportunidades


Afetado diretamente pela pandemia o Centro Brasil no Clima, viu nas redes uma nova forma de se relacionar com outras instituições e dar continuidade ao seu trabalho pioneiro: desenvolver ações e políticas contra as mudanças climáticas no âmbito subnacional. Mesmo com uma produção de trabalho mais intensa, a conexão entre os projetos do CBC com a sociedade civil e política tornaram-se ainda mais próximas e atuantes, possibilitando a renovação de vários projetos, como a ativação de fóruns da mudança climática em diferentes estados do Brasil. O coordenador de projetos, Guilherme Lima, disse que essa comunicação mais virtual facilitou a conexão entre os diversos atores e a possibilidade de explorar mais o trabalho da instituição. Guilherme observa que apesar da facilidade em se relacionar com a sociedade, ainda é muito difícil ter essa articulação com o governo, ocasionado uma dificuldade em articular com o exterior, já que muitos dos recursos financeiros para as mudanças climáticas no Brasil vem de investimentos internacionais.


Nesses primeiros seis meses, o CBC focou na sua atuação subnacional explorando a perspectiva das eleições municipais, construindo uma rede de educação climática e treinamento para os futuros candidatos. “Essa estratégia do CBC em focar no nível subnacional é interessante porque tanto ajuda a sinalizar a importância de ter esse trabalho com os estados e também com municípios, porque, de fato, as emissões ocorrem nos estados, e quando trabalhamos com o nível nacional existem muitas políticas de ações que de nível estadual e municipal ficam de fora da análise. O CBC conseguiu ampliar sua rede de atuação, está formando laços com diversos estados e com outras instituições que atuam nesses estados também”, disse Guilherme a respeito das conquistas do CBC em seus projetos.


A perda precoce e trágica de um líder e referência, Alfredo Sirkis, do Centro Brasil no Clima


A perda trágica e inesperada do líder e fundador da instituição, Alfredo Sirkis, grande nome para o ativismo ambiental do Brasil, no dia 10 de julho, em um acidente de carro no estado do Rio de Janeiro, comoveu a todos os coordenadores da instituição, que expressaram o mesmo sentimento: dar continuidade do legado que Sirkis deixou. Para eles a única forma de mostrar agradecimento e respeito é trabalhando fortemente para que a luta do Sirkis não seja esquecida.


Olhando a atuação para o início dos trabalhos no ano de 2020 do CBC, os coordenadores ressaltaram a sensação positiva e satisfatória da atuação da instituição. Para eles, a pandemia, trágica como ela é, não impediu o reconhecimento maior para os projetos programados para o ano, e, com isso, foi possível trazer ainda mais resultados para a instituição. A coordenadora Marília Closs avalia os seis primeiros meses do CBC como “resiliente”. “A gente enfrentou muitos desafios: o negacionismo do governo federal, a pandemia e a perda trágica da nossa maior liderança, que é o Alfredo Sirkis, e mesmo assim, continuamos trabalhando e acreditando muito no nosso trabalho e acreditando podemos construir uma agenda climática no Brasil em parceria com diversos setores sociais”.

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